terça-feira, 19 de junho de 2012

MONSANTO

Em Lisboa, a 4 de Fevereiro de 1939, aquando da entrega do "Galo de Prata", representantes do Povo de Monsanto são recebidos pelo Senhor Presidente da República, Marechal Oscar Fragoso Carmona, Senhor Presidente do Conselho de Ministros, Prof. Dr. António Oliveira Salazar e outras ilustres individualidades. Em 1938, António Ferro e o “seu” Secretariado de Propaganda Nacional decidiram atribuir a Monsanto o “Galo de Prata” que distinguia a “Aldeia Mais Portuguesa” de Portugal. O ideário que presidiu à instituição daquele concurso era idêntico ao que tinha dado origem ao próprio Secretariado de Propaganda : “combater por todos os meios ao seu alcance a penetração no nosso país de quaisquer ideias perturbadoras e dissolventes da unidade e interesse nacional”. Apesar da evidente carga ideológica do prémio, o epitáfio passou a figurar como baluarte de Monsanto. Localizada no concelho de Idanha-a-Nova, Monsanto é uma imponente povoação esculpida no granito agreste de um promontório de pedra que domina toda a planície circundante. A óptima localização geográfica do lugar, tornou aquele Monte Santo refúgio privilegiado para os mais primitivos povos. Apesar do levantamento arqueológico da sua proto-história ser manifestamente insuficiente para poder traçar com precisão um quadro histórico da sua fundação, será legítimo afirmar que naquele aglomerado de pedra se encontram vestígios de uma ocupação anterior ao Neolítico. A condição de fortaleza natural e os fragmentos de machados neolíticos encontrados no morro fazem supôr que Monsanto tenha sido um castro pré-Romano. A proximidade da antiga Egitânia (Idanha-a-Velha) e da estrada que ligava Mérida a Compostela e os inúmeros vestígios da ocupação Romana ( cerâmica, moedas, joalharia e inscrições funerárias) são sinais claros de que o Monte Santo terá acolhido romanos, naquilo que deveria ser um “oppidum”. Aos Romanos sucederam-se os Godos e os Árabes que ali deixaram marcas indeléveis da sua passagem. Ainda hoje , muito do repositório etnográfico e antropológico desses povos sobrevive com as gentes da terra. Exemplo disso, é a festa de Santa Cruz no dia 3 de Maio. Romaria profundamente marcada por rituais pagãos, posteriormente cristianizados. Subjacente à festa está a lenda dos sitiantes. Assim, e segundo a tradição, há muitos séculos atrás, Monsanto estaria cercada por um exército mouro ou castelhano. O cerco durou sete anos, durante os quais a aldeia foi esgotando os mantimentos até sobrar apenas um vitelo e um alqueire de trigo. A tragédia parecia eminente. Foi então que uma anciã da aldeia arquitectou um plano genial. Depois de alimentar o vitelo com o último alqueire de trigo, foi arremessado pelo penhasco, caindo no meio do acampamento sitiante. Os guerreiros vendo que os aldeões se davam ao luxo de atirar uma vaca bem nutrida para o “quintal”, julgaram que Monsanto estaria sob a protecção de uma estranha força divina. Isso era motivo mais que suficiente para embalarem a trouxa e se porem a milhas. Foi assim que a argúcia de uma “velhota” Monsantina derrotou as tropas sitiantes. Este episódio terá ocorrido num dia 3 de Maio e é nesse dia que se comemora todos os anos a Festa de Santa Cruz ou do Castelo. A proliferação de lendas e tradições mouras, onde se destaca o adufe (instrumento musical tradicional que apenas deve ser tocado pelas mulheres) sobrevivem como testemunho evidente de uma presença marcante dos povos árabes nesta região. A construção da fortaleza de Monsanto, edifício profundamente ligado à história da povoação, perde-se na penumbra dos séculos. Alguns investigadores sustentam a tese da origem Suevo-Visigótica da fortaleza, mas em rigor, só a partir da fundação da Monarquia portuguesa se definem contornos cronológicos precisos. Depois de ter concluído a Reconquista da região aos mouros, D. Afonso Henriques terá reconhecido o valor estratégico-militar da fortaleza. Por isso o Rei decidiu mandar reconstruir a fortaleza e repovoar Monsanto atribuindo-lhe grandes regalias pelo foral de 1174, mais tarde confirmado por D. Sancho I (1190) e por D. Afonso II (1217). Ainda antes de atribuir o primeiro foral, D. Afonso Henriques tinha doado a inexpugnável fortaleza a D. Gualdim Pais, Grão-Mestre da Ordem dos Templários. A importância estratégica de Monsanto como bastião defensivo foi crescendo com o correr dos séculos. A fortaleza servia de posto de sentinela avançado de onde se permitiam avistar, com antecedência, incursões hostis no território português. Em 1510, D. Manuel eleva a povoação a vila, honrando-a com o beneplácito de poder usar no seu escudo a esfera armilar. A inexpugnabilidade da fortaleza é definitivamente comprovada com as duas últimas tentativas de ocupação por exércitos invasores. A primeira por D. Luís de Haro (ministro de Filipe IV) em 1658, e a segunda pelo Duque de Berwick em 1704. O falhanço desses audazes invasores terão dissuadido tentativas semelhantes. A partir daí a fortaleza foi perdendo a sua importância militar. No princípio do século XIX uma violenta explosão no paiol de pólvora do castelo provoca a destruição parcial da fortaleza e das muralhas. Mais tarde a última guarnição militar abandona a vila, colocando uma pedra lapidar numa heróica história de coragem e defesa intrépida da fronteira portuguesa. Era o fim de um glorioso período na vida de Monsanto. A vila entretanto foi-se expandindo para lá das muralhas, formando a actual freguesia de S. Salvador, a meia encosta do cabeço de Monsanto.

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